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30

por Marina Ricardo, em 25.10.21

A minha vida não se aparece nada com o que achei, um dia, que ela seria. Passei muito tempo dos 20 a tentar encaixar-me num molde que não me servia. A desiludir-me porque nunca cabia dentro das minhas espectativas. Tornei tudo muito mais difícil. Fechei muitas portas. E fechei-me a muitas pessoas. Não podemos ser muito para os outros, se não formos nada para nós. Custou, mas aprendi.
Os 20's foram muito mais difíceis do que deviam, porque eu os fiz difíceis.
Foi preciso muita força para derrubar as barreiras e deitar por terra as ideias pré feitas e sonhar sonhos novos. Estabelecer novas metas, fazer novas amizades e fazer-me disponível para viver e para amar. Chegar a mim.
Envelhecer está a ser o melhor que me podia acontecer. Conhecer-me. Aprender a amar-me. Cair muitas vezes de cabeça. Ser cabeça dura. Ter o coração na boca, e a boca no mundo. Fazer as pazes com a vida que nunca vou ter, que nunca existiu. Perceber quais são os defeitos e as qualidades que sustentam a minha casa.
Entro hoje nos 30. A minha vida não se parece nada com o que achei que ela seria. E, isto é a maior e melhor descoberta que fiz até hoje; a vida só é boa assim: inesperada e inquieta para ser vivida.

publicado às 01:30

azar

por Marina Ricardo, em 15.10.21

Trago um frasco de lágrimas por chorar debaixo do braço. Trago também, ao peito, os amores que deixei morrer, mas, não soube largar.
Trago tudo o que não engulo, nem mastigo, ao colo na esperança de o digerir sem lhe sentir o sabor amargo na boca.
Trago-te no coração, não dentro, á porta. Sei que o nosso amor já defenhou, mas só te hei-de carpir no dia, em que, por azar, deixar cair o pote e tiver que seguir de braços vazios e olhos molhados.

publicado às 02:41

Batismo

por Marina Ricardo, em 30.09.21

Sacudo os pés à entrada. Pouso a chave de casa na mesinha agora poeirenta. Ponho o coração no bolso. Fecho os olhos ao de leve, enquanto respiro fundo. É mais fácil assim.
As tuas malas estão atrás da porta. A tua presença debaixo do tapete. O teu nome dança com as partículas de pó que sacudi da sola dos sapatos novos.
A casa está vazia. O silêncio grita.
O meu coração, agora guardado, agita-se na algibeira.
Podia dizer que me chamo saudade. Mas, a verdade é que me batizaram, em segredo, solidão.

publicado às 22:52

Duplicado

por Marina Ricardo, em 05.09.21

Escrever é viver duas vezes.

Escrever é, também, morrer duas vezes.

Na tentativa de não fazer nenhuma das duas, calei-me.

publicado às 21:18

A cidade ainda dorme

por Marina Ricardo, em 10.08.21

A cidade ainda dorme. Tudo parece mais fácil assim, estático. Quieto como numa pintura.
O café está morno. O tempo também.
De mãos geladas agarro com demasiada força a chávena quase fria - como eu.
Imagino-te. Não me pareces acordado. Nunca foste muito de manhãs.
Os teus movimentos serão tão automáticos como os meus? Não devem ser.
As olheiras cheias de sonhos por dormir adornam-me a face lavada de lágrimas que não te chorei - ainda.
Neste filme que protagonizo sozinha, amo-te sempre sem sabermos - os dois.

publicado às 01:18

apaixonada

por Marina Ricardo, em 23.07.21

E aqui sigo, sozinha, embalada na música que podia ter sido nossa, apaixonada pela história de amor que não tivemos.

publicado às 23:22

Cinema de domingo à tarde

por Marina Ricardo, em 21.07.21

Continuo a espera do nosso momento de filme.
Trocas de olhares envergonhados. Eu baixo os olhos, tu sorris. Eu deixo cair aquela pilha de papéis, tu apareces, milagre!, ajudas-me, e as nossas mãos tocam-se.
Em que nos cruzamos no café e casualmente te sentas na minha mesa. Em que, conversa puxa conversa, acordamos que a vida que se passou entre nós não significa nada. Que o facto de, agora, não nos conhecermos não faz diferença nenhuma. Em que está tudo bem.
Continuo a fantasiar com esse final épico de comédia romântica de domingo a tarde.
Mas, na verdade, nenhum de nós está assim tão interessado, nem vivemos na fox life...

publicado às 19:59

Marte

por Marina Ricardo, em 09.07.21

Entramos em período retrogrado antes de alinharmos os astros.

publicado às 23:27

Não vale a pena, deixa estar

por Marina Ricardo, em 12.06.21

Não me olhes plana. Tenho muito mais vales e montanhas do que aqueles terrenos acidentados que pensas ter visto.
Não me tomes por aquilo que sentes, muito menos pelo que julgas ver.
Não me dês adjetivos, nem me contes por palavras que não me saíram da boca.
Não me tracei com linhas suaves, ou palavras feitas.
Não fui feita para ser subtil, nem para me escrever pelas letras dos outros, nem tão pouco para caber nos teus moldes apertados.

publicado às 20:07

amiúde

por Marina Ricardo, em 28.05.21

Aproveito o vazio das noites, o silêncio de quem dorme.
Postro-me, quase sempre, numa cadeira qualquer e deixo-me consumir por todas as intempéries que fecho, a sete chaves, em baús e caixas negras que trago amiúde debaixo do braço.
Dreno-me assim de toda a vida que fingo viver leve, levemente. Pego as dores ao colo, embalo-as devagarinho, quais crianças frágeis. Passo assim as madrugadas: voz embargada, alma perdida, medo no regaço. Quando o dia amanhece, adormeço e nasço para um novo dia. Com tudo. Sempre sem nada.

publicado às 01:25


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