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A sociedade, os órgãos de poder, tem que parar de projetar os seus medos e cresças na vida e na realidade dos outros.
As minhas decisões, na minha realidade, quase sempre privilegiada, não podem definir a vida e as escolhas dos outros.
Dar opção, dar escolha não pode ser sempre limitado pelo que os outros, pelo que eu, tão cheia de mim e de moralismo, acham aceitável.
Pelo eu faria se... A minha vida as minhas escolhas. A tua vida, as tuas escolhas.
E, hoje é mais um dia em que esta simples ideia não pode ser alcançada: A minha vida as minhas escolhas. A tua vida, as tuas escolhas.

publicado às 23:28

perguntou ele #18

por Marina Ricardo, em 10.06.22

- Mas, vais ficar aí muito tempo? - perguntou ele.
Tinha o telefone em altifalante. Estava a pintar as unhas. Escuro. Sempre de escuro.
Olha em redor. As palavras dele ainda ecoam no quarto pequeno e pouco decorado.
Os seus olhos pousam por momentos nas duas plantas, estranhamente felizes e verdes, pousadas sobre um monte de livros por arrumar, ao lado da janela ainda aberta.
Pinta a unha do dedo mindinho com alguma surpreendente previsão enquanto respira fundo.
- Comprei duas plantas no domingo passado.
A frase respondia à pergunta. Achava ela.
- Não precisas de mentir - não era uma acusação. Mas, fe-la pensar que ele, decerto, não tinha percebido a resposta.
- Não estou a mentir. Comprei mesmo duas plantas - faz uma pausa para fechar o frasco pequenino de verniz - e, sabes que tenho que ir até ao fim. Onde quer que isso seja. Estou a aprender a confiar no processo... O que quer que isso seja.
Ele respirou fundo.
- Ok. Amanhã ligo-te.
Desligou sem esperar que ela lhe dissesse mais alguma coisa.
Ele não ligou. Ela não esperava que ele o fizesse. E estava tudo bem. Fazia parte do caminho. E, agora ela confiava no processo - o que quer que isso fosse.

publicado às 01:51

Oceano

por Marina Ricardo, em 29.05.22

A felicidade, descobriu, nunca ia ser um estado permanente. Não havia feliz para sempre, nem sempre feliz.
A felicidade vem em ondas; às vezes passamos por elas, outras mergulhamos, outras caímos nelas e a água entra-nos pelo nariz - e ninguém é feliz com água, mesmo que água feliz, a entrar pelo nariz (rima e é verdade).
A felicidade mais do que um estado, era uma interpretação de uma aula de surf que ela nunca teve - surf sem prancha num mar sempre cheio de ondas.

publicado às 01:19

aos poucos

por Marina Ricardo, em 24.04.22

Respiro devagar. Há tanto barulho aqui. Não quero ser mais um suspiro numa sala cheia de ruído.
Em apneia, calo.
Não deixo que me oiças o silêncio. Bato, ao de leve, com os dedos na mesa entre nós. Não me prestas atenção. Não me tens visto a alma ultimamente. Tenho tido dias de muito desalme. Desalmada parece sempre mais fácil seguir em frente. Fingir que o que está para trás não nos está atado ao pé a cada passo que damos .
Não digo nada. Não esperas que eu fale. E eu espero, impaciente, o dia em que percebas que, em apneia e silêncios gritados espero. Espero. Espero que me perguntes se estou viva em vez de me deixares morrer aos poucos.

publicado às 00:29

pressa

por Marina Ricardo, em 20.04.22

Não tenho estado em lado nenhum.

Vou, mas, fico sempre.

A cabeça pensa devagar para o coração não chegar a sentir nada demasiado depressa.

publicado às 15:29

conta-me

por Marina Ricardo, em 14.04.22

Aquece-me os pés, as mãos e a alma. Finge que não vamos a lado nenhum. Faz de conta que nada conta e que, no final de contas, não temos contas para acertar.

publicado às 23:48

era capaz

por Marina Ricardo, em 17.03.22

- Estás diferente.
Não era uma pergunta.
O carro foi parando gradualmente até chegar ao semáforo vermelho.
Era capaz de me apaixonar por ti, pensei.
É verdade. Não estou nada igual.

publicado às 01:55

O agora

por Marina Ricardo, em 26.02.22

Parece que estamos a ver o mundo através de uma janela embaciada, com vidros sujos.
O que parece filme interminável não para de nos chocar na televisão.
O vidro da janela está sujo. Mas, tudo isto não é um filme. Está a acontecer. Entre nós, à nossa frente. Debaixo do nosso nariz. Com o nosso avale.

publicado às 01:18

fosso

por Marina Ricardo, em 18.02.22

Há tantas vidas entre os dias que nos separaram.
Histórias inteiras cabem nesse fosso entre os nossos pés - e o nosso coração. Caminhos sem volta, estradas de alcatrão não de quilómetros, mas de anos luz.
Passados e futuros. Filhos e amores por nascer. Entre nós. Vidas dentro de vidas, vividas e por viver entre a vidas que vives e a vida que escolhi viver - sem ti.

publicado às 23:23

testa fria

por Marina Ricardo, em 03.02.22

São cartas de amor o que te escrevo quando me calo, nunca consentindo, e engulo as palavras que nunca havemos de viver quando te beijo a testa fria.

publicado às 23:20


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