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Das minhas "Lembranças"

por Marina Ricardo, em 17.04.12

Lembram-se disto e disto

Não está parado! Vai andando lentamente, ao sabor do sonho...

 

 

1 – Antes de Tudo

 

Era capaz, de naquele momento, ver com bastante clareza, todos os pontos em que havíamos falhado. Todos os pontos, que logo à partida eram erros crassos e infantis.

Mas, na verdade, eu era a culpada da maior parte deles – encaremos os factos.

Sempre fora demasiado inquisidora. A palavra porquê tinha sido, desde sempre, a que mais aflorara aos meus lábios.

Às vezes, em tom de brincadeira, a minha mãe dizia que antes de eu balbuciar qualquer outra palavra já andava por aí a perguntar o porquê das coisas às pessoas.

O saber, o ter poder de informação, o controlar, sempre me fascinou, me prendeu a atenção. Dava-me a noção de posse, de confiança.

E, embora fosse uma fala-barato que incomodava de tanto palrar, era perita em observar, em descortinar a realidade de uma forma que os outros nunca faziam. De uma forma nua e crua.

Os pormenores eram olhados atentamente. Prendia-me neles, dava-me um especial gosto em analisa-los.

- Lá está ela com o olho Raio-X – gozavam os meus amigos.

E foi numa dessas pesquisas visuais que o vi pela primeira vez.

Não sei dizer ao certo qual foi o detalhe que me saltou à vista em primeiro lugar. Talvez tivesse sido a sua personalidade forte e decidida, o olhar direto e sem medos, que se depositava nos olhos dos outros, nem que fosse para dizer um simples “Bom dia”. Ou, por outro lado, tivesse sido o facto de ele me ver de modo diferente. Ou talvez tenha sido o meu lado feminino e não racional que se apaixonara pelos seus atributos físicos, pelo seu corpo torneado ou pela forma de como o seu cabelo caía misteriosamente sobre o olho direito. Ou, por outro lado, é provável que tenha sido a sua estupenda e constante inteligência que roubara o meu coração.

Ou, muito simplesmente, e sem razões à mistura, o facto de ele me amar, ou de pelo menos, eu acreditar que ele me amava, me tornasse um alvo fácil, e, sem que eu nada pudesse fazer, quando dei conta, ele já agarrava a minha mão, e tomava a minha alma como sua, e fundia-a com a dele.

Podia ter sido por tantos motivos, ou por nenhuns… é certo e sabido que não escolhemos quem amamos…

Mas, o facto de o ver todos os dias, na minha habitual paragem para o pequeno-almoço, ajudou.

Todas as manhãs ao sair de casa, passava pela padaria do bairro para tomar um café. Desde que entrara para a universidade que o café passara de exceção a regra, de bebida de conviva exibicionista, a necessidade.

A cafeína apoderara-se de mim, como ele, viria a apoderar-se.

Porém, naquele tempo era-me impossível imagina-lo, imaginar alguém na minha vida.

Estava a meio de tudo. A meio das oportunidades perdidas e dos projetos, a meio de um novo curso de fotografia, e a meio de perder a paciência, e fugir para longe de tudo e todos.

E foi a meio do caminho que ele me intercetou pela primeira vez. Na minha mente, ele chamava-se laconicamente o “rapaz do café”. Para mim, ele não passava de uma figura, em quem, muito distraidamente pousara a vista. Mas, ele, sempre muito mais alerta do que eu, conhecia a minha essência muito antes de eu dar pela sua presença.

Foi por esta altura que abandonei os porquês, e passei para os “porque não”.

Deixei-me levar, amar e ser amada.

É claro que, por ele, acabara por abdicar de algumas coisas que até então julgava imprescindíveis ao meu dia-a-dia. Deixei as expedições fotográficas, que, verdade seja dita, me davam mais prazer do que qualidade como fotógrafa, e dediquei-me inteiramente a casamentos e a produções de moda ocasionais.

Mas, desengane-se quem pensa que fiz estas mudanças por me sentir forçada. Por ele me forçar. Fi-las de bom grado, sem sacrifícios, por amor, por esta nova força que me havia dominado – em menos de dois anos, a minha vida tinha dado uma volta de 180 graus.

Mudei, porque senti que as dores e feridas do passado que tanto me custaram a largar, estavam a ser curadas. Era como se ele fosse um bálsamo, um analgésico para as minhas cicatrizes. Larguei tudo, com um grande sorriso nos lábios.

- Não achas que é demais? – perguntava-me ele de quando em vez.

- O quê?

- Deixares assim tudo por mim?

- Não sejas tolo – respondia-lhe, beijando-lhe a ponta do nariz. Nada é demais para ficar contigo. Além disso, não mudei por ti, Senhor Convencido.

E assim vivíamos. Convenhamos que o nosso relacionamento nunca fora o convencional – não éramos o típico casal da nossa idade - apaixonados errantes e tolos. Tínhamos um amor lúcido, real, e em muitos aspetos mais verdadeiro que o dos outros que nos rodeavam. Acreditava que não havíamos sido desenhados para viver tórridas e lindas histórias de amor.

Simplesmente, amávamos quem podíamos, quem queríamos, quem os genes deixavam que amássemos.

Claro que as minhas fantasias de menina, ainda desejavam que Noah chegasse de cavalo branco e com fatiota de príncipe, em vez das suas lavadas e gastas t-shirts coloridas e estampadas, mas se há coisa que aprendemos com o passar dos anos é que os contos de fadas são isso mesmo, meros contos.

Abanei a cabeça freneticamente quando as lágrimas começaram a cair, turvando-me a visão.

Agarrei o volante com força, carreguei no acelerador desesperadamente. Não me dei ao trabalho de olhar para o velocímetro – sabia que os limites estavam claramente mais do que ultrapassados.

O motor do carro rugia, reclamava. Ignorei-o.

Na minha mente floreavam memórias claras e dolorosas.

Depois, lembrei-me que ele nunca me prometera nada. Nunca me fizera promessas futuras ou planos a longo prazo.

“Viveremos um dia de cada vez”, costumava dizer.

Na verdade, ele nunca me dissera que me amava. Nem mesmo quando eu o repetia constantemente.

Subitamente senti-me fria, gelada. Morta.

Pisei o acelerador a fundo.

As lágrimas bloquearam-me a visão. Larguei o volante, e deixei-me ir, rumo ao nada, ao tudo, ao vazio, ao infinito.

Escuridão. Foi tudo o que vi. E, a dor, as lágrimas e o frio desapareceram, assim como todo o resto.

publicado às 00:07


11 comentários

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De s. a 17.04.2012 às 08:07

Acredito que sim :)
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De Lima a 17.04.2012 às 12:41

Eu lembro!! :) E queria ler mais... :P :P
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De Marina Ricardo a 17.04.2012 às 13:50

Ando a preparar tudo para puderes ler mais! xD

Já com acordo ortografia e tudo! xD

;)
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De Lima a 17.04.2012 às 14:55

Ah fogo!! Muito bem!! :)
Fico à espera então :P
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De Marina Ricardo a 17.04.2012 às 15:16

Sempre a arrasar!
E estou a melhorar capitulo a capitulo... a ver se a coisa anda! xD
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De Filipa a 17.04.2012 às 21:22

Tens de me mandar capitulos novos :D
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De Marina Ricardo a 18.04.2012 às 01:14

Estou a melhorar TODOS! o primeiro está pronto-pronto, o segundo quase, e os restantes dez/onze tenho de trabalhar bastante neles! Mas, depois mando-te o 1 prontinho! <3

;)
Obrigada pela ajuda!!
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De Filipa a 18.04.2012 às 14:17

Yey manda manda!!! :D Quero ler!!! :D <3
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De Marina Ricardo a 18.04.2012 às 23:10

Mando :)

Tenho de reler tudo e depois envio!!

Beijinhos <3
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De Carolinaa a 17.04.2012 às 23:48

Marina, querida, está fantamarabulástico, lindo... opáh, nem sei que te diga.
Matas-me se eu disser que quero mais? *-*

Isso agora, eu não sei, talvez um projecto para o Verão e aí não faltaria gente para me emprestar os livros. Muita gente gosta de HP eu não, pelo que parece.
;)

Beijinhos <3
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De VeraPinto a 30.07.2012 às 19:35

Oh mulher.. descobri esta pérola no teu blog, quero mais, quero muito muito mais :)
Venha daí, está lindo !!

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