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Doía-lhe o amor. O que lhe roubaste. E não devolveste. Magoaste-lhe o amor. Não o coração ou as costelas. O amor. O amor que ela te deu e tu perdeste.
Pediu um café. Embora não o fosse beber. Quando lhe perguntam o que queria respondeu a primeira coisa que lhe viera à mente.
Café. Ele pedia sempre café. Ela nunca pedira café.
Deu por si com café à frente. Só café. Não ele. Nenhum lugar comum. Familiar.
Um mundo mais só, ao pé daquela janela. Café poisado na mesa á sua frente.
Talvez o futuro fosse assim: o café dela. Não dele, não ele. Café, ao pé da janela.
Agarrou a chávena. Com as duas mãos. Estava quente.
Tenho uma inflamação nas costelas. Afinal não é a vesícula que me deixa acordada noites a fio, cheia de dores.
Pelos vistos, o meu corpo consegue ser mais imaginativo que a minha cabeça.
Da última vez que fiquei sem trabalho mandei uma carta à Kelly com o último dinheiro que tinha no bolso. Quando recebi a resposta, uns meses depois, era o meu primeiro dia do trabalho.
Naquela altura, a Kelly foi assim uma estrela da sorte.
Agora, assim embebida no mesmo espírito, escrevi novamente uma carta. Vou envia-la amanhã. Pode ser que dê sorte.
As minhas dores. Continuam cá todas. E, cada vez mais. Semana passada, assim em desespero, mandei um email à minha médica de família com um relato chato das dores que afinal se mantém.
Ontem ligaram-me do centro de saúde. A minha médica suspirou ao telefone. Disse-me que não sabia que dizer.
Tive uma noite horrível. Dores, dores e dores.
Vou ao consultório amanhã.
Pare em choro calado, nesse parto, onde parte e não nasce nada.
As pessoas nunca vão parar de nos desiludir. Mesmo que seja sem querer, mesmo que não seja por mal, mesmo que nem se deem conta.
Na verdade, também nós nunca vamos deixar de magoar os outros. Cada cabeça sua sentença. Cada um se magoa com coisas diferentes.
Não me considero uma pessoa fácil de magoar. Sou forte. Sou bruta. Sou precipitada. Tenho mais pensamento que ouvidos. Mas, não sou de ferro. As pessoas vão sempre magoar-me, e, quase sempre pelos mesmos motivos. Tenho calcanhares de Aquiles, como todos, diferentes de todos.
Gosto demasiado das pessoas. E, por norma, o amor é o que mais me vai magoar. Sei que vou sempre esperar mais dos outros do que, por norma, eles me vão dar. Talvez seja demasiado exigente nos relacionamentos, talvez seja eu, sempre eu e não os outros.
Não posso ter dos outros a dose de compromisso que considero necessária, mas também não me consigo impedir de a querer. De querer que mudem. Nunca me consigo deixar de preocupar com as pessoas erradas. Nunca consigo deixar de amar as pessoas que devia.
Não tenho culpa de me magoar porque amo demais, por me sentir traída quando me amam de menos. Faz parte de mim esta confiança completa, este amor absoluto a quem quero na minha vida. Este compromisso de lealdade e companheirismo que tenho por quem amo. Não tenho culpa que os outros não correspondam às expectativas que tenho neles.
Tenho culpa por me deixar magoar. Tenho culpa, sim.
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