Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Ama-me os defeitos. As qualidades já aprendi a amar.
Tenho mais uma semana de baixa.
E, enquanto as minhas chefias me amaldiçoam as "férias", cá estou eu, semi-deitada, semi-sentada, medicada, com cheiro estranho a pomada na pele e a sentir dores em todos os músculos.
Correm-lhe nas veias dores que não lhe desaguam nos olhos. Correm-lhe.
Sem desvanecer.
Sem se diluírem nesse circuito sem fim: pés.coração.cabeça.cabeça.coração.pés.
As nódoas negras do pescoço estão a amarelecer.
Ontem passei pela primeira vez pelo local do acidente. Parecia tudo mais pequeno do que imaginava. Ainda haviam pedaços do carro na berma da estrada.
As dores do pescoço e das costas não me deixam esquecer. E, dei por mim a não querer esquecer. Se esquecer vou perder parte de mim, do que fiz o meu corpo passar, do que passei até chegar aqui.
Perguntaram-me, um dia destes, se tinha ficado com trauma. Respondi, prontamente, não. Não sou dada a traumas. Sou dada a histórias. Com h. E se há histórias felizes, outras nem tanto.
A minha mãe diz que devo esquecer. O meu pai não quer falar sobre o assunto. Todos tiveram mais perceção, do que eu própria, da minha quase-morte.
Ainda não consegui ir trabalhar. Mas, também não consigo descansar – as dores e as preocupações não deixam. Não sei que raio hei-de fazer. Só sei que, se fechar os olhos ainda me sinto girar dentro do carro.
Não tenho trauma, mas, também não me quero esquecer. Quero tudo o que me forma em mim. Mesmo que isso sejam nódoas negras no pescoço, um carro despedaçado e dores que me tiram o sono.
Vi o arco-íris no banco do passageiro. Começamos por esta música no rádio. Depois esta. Quando me despistei soava esta. Quando, por fim, o carro parou, soou esta.
A F., minha melhor amiga há 20 anos, ligou-me, segundo ela, sem querer, enquanto mexia no telemóvel, mal sai da ambulância.
Quando cheguei a casa, a minha antiga gerente ligou-me a perguntar se me tinha acontecido alguma coisa, do nada.
Há dias estranhos...
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.