Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Conjeturas Noturnas

por Marina Ricardo, em 21.08.12

Imaginem que têm uma filha. Se a ideia não vos satisfizer pensem que são os irmãos mais velhos de uma rapariga teimosa, decidida e senhora do seu nariz.

Vejam-se a ter longas conversas com ela. Pensem no que diriam enquanto ela erra vezes e vezes sem conta, cometendo os mesmo que já cometeram e outros tantos que jamais imaginaram vê-la cometer.

Oiçam o que lhe diriam depois de terem ouvido falar mal dela na rua, depois dos boatos mais macabros chegarem aos vossos ouvidos. Lembrem-se de quando ela era pequena e lhe diziam para não pisar as poças causadas pela chuva na escola, sabendo à noite ela chegaria a casa encharcada. Naquele tempo, era impossível evitar que ela se molhasse – ela ia querer experimentar a sensação de saltar sobre a água, mesmo sabendo que era errado. E nós, à distância, nada podíamos fazer para o evitar. Claro que chegada a casa sempre lhe podíamos dar uma palmada. Mas, adiantaria? Não fizemos nós a mesma coisa naquela idade?

No entanto, agora crescida os erros não se converteriam em leves constipações infringidas na própria. A nossa irmãzinha magoava-se, magoava os outros e destruía tudo quanto lutara para construir. E nós, personificação da impotência nada poderíamos fazer a não ser assistir à sua queda em espiral.

Depois vêm as discussões – as que partilhamos e as que temos sozinhas, quais monólogos barulhentos.

Gritamos. Dizemos o que ela não quer ouvir porque as verdades doem. Deixamos de lhe falar. Queremos bater-lhe. Não a queremos apoiar – quem faz o que ela fez? Será que não pensa? O que lhe passou ela cabeça?

Mas, semanas volvidas, chega a sms e a vontade de perdoar.

Quem somos nós para julgar? Afinal, todos erramos. Devemos deixar de ser amados por isso?

Em silêncio, o perdão começa a nascer em nós. Começa com uma pequena semente no nosso coração, até, certa data, ser floresta.

Claro que o seu processo de crescimento é lento, doloroso e molhado. Nada é instantâneo – não o amor, não o perdão.

No fim de tudo, um dia, depois da mágoa amainar, a nossa irmãzinha voltará a dormir no nosso regaço, desta vez mais humana, mais forte e decerto mais consciente.

E entre um e outro suspiro do seu sono leve saberemos, ao afagar-lhe o cabelo, que a perdoamos e que o ressentimento morreu.

 

(Num sentido figurado, pode dizer-se que é isto que sinto em relação a ela...)

publicado às 01:07


6 comentários

Imagem de perfil

De nobody tavares a 21.08.2012 às 11:35

Agora anda meio mundo a julga-la ... não acho acertado não. Gostei muito do texto :)

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor



Fotografias que vou instagramando




Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.