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3 da manhã

por Marina Ricardo, em 17.05.20

Rimo-nos os dois.

O som acabou por ser abafado pela discussão de uma mãe com os filhos, no areal. Aparentemente as crianças não ficavam quietas, nem onde a mãe gostaria.

A brisa marítima arrepiava-me a pele.

- Não és muito boa a responder a mensagens, pois não...? - perguntou . Sorria. Mas, sabia a que se referia. Não havia ponta de humor na questão.

 

 

Dei um passo atrás.

- Acho que não... - respondi vagamente.

A discussão entre a mãe e os miúdos continuava, ligeiramente mais alta.

- Vou andando... - disse apontando para a rua.

Tinha que sair dali antes que disséssemos alguma coisa estúpida.

- Achas que alguma vez teríamos resultado?

Deu um passo na minha direção, voltando a encurtar a distância entre nós.

- Gui.... - murmurei, encolhendo os ombros, - Por favor...

Aproveitou um qualquer movimento involuntário da minha parte e agarrou-me o pulso. Não estava a fazer pressão nenhuma na minha pele. Mas, sentia que também não me ia largar facilmente se o tentasse sacudir.

- Responde - voltou a pedir.

Estávamos demasiado próximos. Sentia-lhe o hálito a menta, provavelmente proveniente de uma pastilha elástica. Desde de que deixara de fumar, andava sempre munido de pastilhas. Ou costumava ser assim. Que sabia eu...

Respirei fundo:  maresia e menta.

- O que queres que te responda? - Guilherme olhava fixamente para mim. Queria evitar que me olhasse nos olhos. A mão quente não se movia do meu pulso. - Não sei...

- Al... - olhou o mar.

- Não sei. Estivemos sempre em tempos muito diferentes - soei mais irritada do que gostaria. - Quando tu estavas pronto eu não estava. E, quando eu estava pronta para uma relação já não havia sequer essa dúvida... Por isso, não sei.

Guilherme continuava a olhar o mar.

- Eu tinha que me resolver antes de pensar sequer em estar com alguém, Gui. Naquela altura era impossível. - disse mais baixo.

Olhou para mim. Estava muito sério.

- Mas, que importa isso agora? - tentei sorrir. -Estás quase casado e feliz.

Não respondeu. Não me olhou nos olhos. O meu riso morreu-me nos lábios.

- Deixa-me ir embora - pedi clara e calmamente.

Sacudi o pulso que ele segurava, largou-o sem residência.

Não adiantava procurar mais fantasmas à beira mar...

Largou-me .

- Adeus, Guilherme - disse dando largos passos em direção à rua.

Não esperei pela resposta, nem olhei para trás.

Há conversas que mudam o rumo do futuro. Aquela não era, de todo, uma delas.

 

publicado às 00:07


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