E Adormeci

Cortei o cabelo e durmo de janela aberta.

Esta podia se a introdução de qualquer outra vida que não a minha. Acontece que o destino quis que esta me pertencesse.

Mudei - esta é a verdade nua, crua e assustadora.

Às vezes (ainda) não me reconheço. Não me acho no espelho ou nas sombras da parede. Não me vejo nas fotografias nem nos adjetivos.

Encontro-me, antes, cá dentro - ardendo, com sede, com fome. Ou, então, calada e pequena, amedrontada pela falta de cabelo e pelos ladrões que podem entrar-me pela janela aberta.

Tenho medo de me perder neste labirinto espelhado e sinuoso que sou.  Medo de me levar de mim, de me esconder atrás de cabelos longos e janelas fechadas. Mas, também já houve um tempo em que não pintava as unhas, nem pintava os olhos. Houve tempos de tela branca, e de tela negra. 

Às vezes tenho medo. E, depois, lembro-me que deixei de ter medo quando, de cabelo curto, abri a janela e adormeci.



publicado por Marina Ricardo às 00:07 | link do post | comentar | Adicionar aos Favoritos (1)