Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Em resumo: a entrevista de emprego do demo

por Marina Ricardo, em 06.01.15

Escrevo-vos sem voz e com o corpo dorido. Ontem foi um dia de doidos, um o mix nervos-frio-cansaço.

Ontem, fiquei presa numa rede de acontecimentos estranhos que só acabaram perto das 23h.

Mas, vamos por partes:

Tinha entrevista às 11h. Acordei cedo, pus um lanche numa mochila. Ainda mal tinha saído de casa, já me estavam a ligar para confirmar a minha presença. Confirmei, sem achar estranho (embora nunca uma empresa se tivesse mostrado tão preocupada com a minha presença numa entrevista. Podia ser uma coisa boa! Não podia?)

Tentei sempre manter-me calma durante o caminho, expectativas baixas, mas, lá que estava esperançada estava.

Chegada, na sala de espera da empresa encontrei apenas um rapaz, mais ou menos, da minha idade. Sentados com alguma distância, acabei por lhe perguntar baixinho se sabia pelo que esperávamos. Não. Perguntei se lhe tinham falado da remuneração. Não. Perguntei se sabia a função que íamos desempenhar. Pois, também não.

Tentei convencer-me que uma empresa de marketing sem um site na internet, com uma página de facebook com dois meses (e com míseros likes) era normal. Era normal eu estar num escritório num prédio residencial, escritório esse sem publicidade na porta.

Deram-me uma folha para preencher. Algures, em letras miúdas, lia-se um “abdico do pagamento de qualquer remuneração durante o período de formação”. Ainda perguntei ao rapaz se lhe parecia que a formação a que se referiam seria apenas naquele dia, ou, caso, ficássemos com o trabalho. Ele achava que era só pelo dia…

Ok. Já não era assim muito normal.

Depois de mais uns 10 minutos de espera (de referir que das outras divisões saia uma musica tão alta que pus em dúvida se não haveriam aulas de zumba li dentro) chamaram-me à sala do “diretor”. Apresentaram-me a minha “líder”, a J., com quem ia passar o dia no “terreno”.

Ok. Ainda me parecia normal.

Lá fomos. Antes de sairmos, uma outra rapariga, a T. que estava já em formação, juntou-se a nós.

A J. mandou-me pegar num caderno, porque, ao longo do dia, me ia dar matéria para eu decorar para  teste que ai ter à noite. Foi de olhos semicerrados que percebi que a formação do dia seria andar porta a porta a tentar angariar clientes para uma empresa de eletricidade e gás.

Ok.  Coisa piorava de figura. Afinal não era um anúncio para Assistente de Marketing e Comunicação"  e para "Formador de Comunicação e Marketing”? Pois, afinal não.

Não me pareceu mal. Quer dizer, era uma empresa que mentia um bocadinho na função, mas decerto que não seria assim tão mau (Era.).

A passo apressado, a J. vendia-me a empresa. Dizia céus e maravilhas. Em como a organização em pirâmide, em que se sobre muito rapidamente, era fantástica e como resultava sempre. E, como, chegados ao último patamar (que atingiríamos no máximo em 18 meses), ser-nos-ia proposta a abertura de um escritório nosso, da mesma empresa.

Quando dei por mim estávamos na estação de comboios. A T., de mala e lanceira o ombro, correu para carregar o passe. Quando questionei o que ali fazíamos, foi-me dito que íamos para Ermesinde.

“Tira bilhete”. Disse-me a J. “Eu é que tenho que pagar o bilhete?”, perguntei.  “Sim, nós é que pagamos as nossas deslocações”.

Ainda lamentei o facto de ter pouco dinheiro comigo, de não ter vindo preparada para gastar dinheiro, mas de pouco me adiantou.

Quarenta minutos depois estava em Ermesinde. Na minha cabeça surgiam muitos cenários. Nenhum dele bom.

Tentei sempre meter conversa com a T., que como estava em formação tinha sempre uma opinião mais concreta e real do que se passava. Não era fácil. A J. parecia não querer grandes conversas.

A nossa manha acabou às 15.30h, depois, de umas cinquenta casas visitadas. Almocei uma sande que tinha na mochila em 10 minutos e seguimos viagem. A pé. Sempre a pé. Quilómetros e mais quilómetros.

Não me incomodei com o facto de ter de andar muito, nem com as respostas ríspidas de algumas pessoas. Não me importaria de ter um trabalho daqueles.

Mas, estava estupidamente triste e desiludida. Só queria ir para casa e esquecer que tinha depositado ali esperanças. Mas, em todo o caso, qual jornalista, queria perceber onde estava “metida”.

A J. não parava e me fazer perguntas. Montes delas, que querai que eu respondesse no caderno: ele era lista de defeitos e qualidades, era definições disto e daquilo, e coisas que ela me ditava, coisas, tantas coisas, para eu decorar.

Durante a tarde, a J. afastou-se para “explorar território” o suficiente para eu poder fazer perguntas à T.

Bombardeei-a com perguntas. Se se recebia, se ela gostava, se compensava, se, se e se.

Ela estava desanimada, estava a gastar muito dinheiro, não estava a receber nada pela formação. Ainda não sabia como lhe iam pagar o ordenado. Sabia que ganharia uma comissão por cada novo cliente angariado. Trabalhava 10h/dia, seis dias por semana. E, caso não alcançasse os objetivos da semana, ia também trabalhar ao domingo. Estava ali porque precisava mesmo do trabalho. E de dinheiro.

Alarmada pela nossa conversa, a J. apressou-se. Perguntou de que falávamos. A  J., pressionada, lá disse que era sobre a vida pessoal dela. Mas, a J. queria mais pormenores. Quando se tocou no dilema dinheiro, a J. ficou revoltava. Porque aquele trabalho era ótimo, porque nos permita ser melhores, evoluir e, ganhar muito dinheiro.

Quando vi as coisas mal paradas, tive que intervir. Ânimos acalmados, continuamos.

Andamos até às 20h na rua, a bater em todas as portas. Sem nunca parar. Durante a tarde, a T. recebeu um telefonema e atendeu. Chateada a J. reclamava que era por isto que ela não evoluía no trabalho, forçando-a a desligar o telefone.

Conseguiram dois clientes novos, em nove horas, e 150 casas.

Já perto das 21h chegamos ao Porto. Eu munida de apontamentos (que me foram dados para estudar enquanto andava pelas ruas escuras e frias de Ermesinde).

NA empresa, foi-me dado o teste. Perguntas parvas, onde era obrigada a despejar tudo o que decorara pelo caminho. Porém a última pergunta dizia um “tem alguma pergunta que gostaria de colocar?”.

Tinha muitas. Escrevi apenas “Como funciona o pagamento?”.

Ao fim de um tempo infinito (ligaram a musica bem alta para eu não ouvir o que diziam na sala do “diretor”), voltaram a chamar-me para a dita entrevista.

Voltaram a fazer-me perguntas da matéria lecionada. Acerca da minha pergunta, adiaram. “Amanhã explicamos, porque fica com o lugar!”.

Ok. Isto não me parece nada bem.

Insisti. “Ainda tenho entrevistas para fazer, amanhã falamos com mais calma. Mas, não se preocupe. Recebe todas as semanas, a partir da terceira semana”

Ainda perguntei se na terceira semana recebia o pagamento das outras duas (se as trabalhei…), mas a resposta foi um redondo não e um sorriso.

Despedi-me das pessoas (o que mais custa aqui é a simpatia de todos. Podem estar a vender banha da cobra, mas têm sempre uma frase moralizadora cliché e um sorriso. Não me admira que tenham pessoas que alinhas nestes esquemas. É triste mas, quem precisa ou quem tem uma personalidade menos forte tem muita dificuldade em dizer não).

Vim para casa perto das 22h (não sem antes me perguntarem se, quando me perguntassem as condições do trabalho, eu as sabia explicar. Pois.) com um trabalho corrupto no bolso, e uma avalanche de palavras que salvara o dia todo. Mal entrei no carro vi o quão corada estava (os nervos!!!). A voz desapareceu-me logo. Fiquei rouca. Uma junção de nervos com frio e cansaço…

Tinha um trabalho em que se trabalhava 60 horas semanais e se recebia um valor desconhecido por cada cliente angariado.

Desabafei tudo com a família. Todos ficaram chocados com o meu dia horrível.

Perto das 23h voltaram a ligar-me (OK. Nada normal) e menti. Disse que tinha recebido uma resposta, de uma entrevista antiga, por email, para um jornal. Para começar hoje. Parecem surpreendidos, mas não insistiram nada.

Fiquei livre e a sentir-me péssima. Hoje encontre ISTO na internet. Parece que não fui a única…

Como moral aprendi que posso candidatar-me a muitos empregos mas, quando me perguntam o que me distingue dos outros candidatos vou ter sempre vontade de responder: o meu amor e respeito pela escrita. Mesmo que a resposta não se adeque é sempre com este pensamento em mente que vou continuar a procurar.

Não foi desta. E, tenho pena que um país como Portugal permita que este tipo de emprego completamente precários seja oferecido a alguém. Uma pessoa que trabalhe 60h semanais tem que ser extremamente bem remunerado. Talvez um dia.

Quando a vocês: por favor tenham cuidado quando responderam a anuncio de emprego na área do marketing, sim?

publicado às 23:00


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Janeiro 2015

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Fotografias que vou instagramando




Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.