perguntou ele #15

Apetecia-me um cigarro. Ou vários – para ser honesta. Mas, cerrei os dentes e olhei para o mar de ondas enormes. Tinha prometido deixar de fumar.

Pelo canto do olho vi-te chegar. Descontraído, mas, sem rir. A culpa era minha – ultimamente estava tão indisponível que mal nos víamos. E, quando a minha disponibilidade horário nascia, a minha disponibilidade humorística definhava.

“O que fazes quando estás sozinha?”, perguntaste-me há uns meses.

Não te respondi e mudei de assunto – sempre fui fugitiva nata.

Tenho pensado muito nisso, sabes?

Sinto-me tão sozinha e cheia que nem tempo tenho para pensar. Deixar de pensar ajuda, sabes?

E, se penso e quero outra coisa qualquer? E se tiver de magoar toda a gente outra vez para me consertar? Já pensaste que sou capaz de não ter arranjo possível?

Sei lá…. Acho que não faço nada. Durmo. E espero não ter sonhos. Nunca soube parar. Nem a dormir.

Não sei. Tenho toda a gente à minha espera. E só queria estar sozinha. Não quero dizer nada.

Queria desenhar, escrever. Pintar, cozer. Cria. Criar-me. Arranjar espaço.

Quando paro respiro e penso em ti. E… e, continuo.

Escrevia-te uma carta de amor, sabes?

Poisei a cabeça na palma da mão. Aproximas-te e pisca-me o olho. Rio-me para ti. Podíamos falar de amor, hoje. Mas, continuava a ser tão mais fácil falar da “casa de papel”.

publicado por Marina Ricardo às 17:30 | link do post | comentar | Adicionar aos Favoritos (3)