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Noite de verão. Alentejo. 2022

por Marina Ricardo, em 15.08.22

Desfruto o silêncio com a mesma devoção e amor com que procuro preenchê-lo.
Rejubilo e enlouqueço nas noites quentes e caladas em que, horizonte escuro como breu, espero que ninguém note que, aqui sozinha, não passo de mais uma pessoa só e calada, assustada e fascinada com o silêncio que aqui se faz.

publicado às 01:50

Oceano

por Marina Ricardo, em 29.05.22

A felicidade, descobriu, nunca ia ser um estado permanente. Não havia feliz para sempre, nem sempre feliz.
A felicidade vem em ondas; às vezes passamos por elas, outras mergulhamos, outras caímos nelas e a água entra-nos pelo nariz - e ninguém é feliz com água, mesmo que água feliz, a entrar pelo nariz (rima e é verdade).
A felicidade mais do que um estado, era uma interpretação de uma aula de surf que ela nunca teve - surf sem prancha num mar sempre cheio de ondas.

publicado às 01:19

Lado nenhum

por Marina Ricardo, em 30.11.21

Tenho o corpo frio e a cabeça quente. As mãos geladas aguardam, vazias, o passar do tempo.
As folhas dançam com o vento e eu balanço os pés a procura de força.
Para andar. Para sair. Para ficar.
Para ir a procura.
As folhas beijam-se umas às outras, às turras e aos atropelos. Algumas tocam-me na pele desnuda e arrepiada. Não são, porém, beijos que me roubam, naquela rua ventosa. Beliscam-me a mão. Uivam, secas, nos meus ouvidos como quem me pergunta quando e porquê.
O tempo passa devegar e as horas passam depressa.
E, eu não passo, porque os pés frios não me levam mais além. Nem a lado nenhum.

publicado às 23:07

Batismo

por Marina Ricardo, em 30.09.21

Sacudo os pés à entrada. Pouso a chave de casa na mesinha agora poeirenta. Ponho o coração no bolso. Fecho os olhos ao de leve, enquanto respiro fundo. É mais fácil assim.
As tuas malas estão atrás da porta. A tua presença debaixo do tapete. O teu nome dança com as partículas de pó que sacudi da sola dos sapatos novos.
A casa está vazia. O silêncio grita.
O meu coração, agora guardado, agita-se na algibeira.
Podia dizer que me chamo saudade. Mas, a verdade é que me batizaram, em segredo, solidão.

publicado às 22:52

Congelado

por Marina Ricardo, em 06.03.21

Há um ano aterrava em Londres. O cheiro a mudança estava empregando no ar. Mas, nós, cheios de sonhos, embriagados de vontade de viver não o sentíamos. Não ainda.

Fui imensamente feliz naqueles dias. Verdadeiramente.

Quando regressamos, o mundo, tal como achava que o conhecia estava de pernas para o ar. O mundo, conforme o conhecia, nunca mais seria o mesmo.

 O mundo está congelado no metro de Londres. Em Piccadilly. No Soho ou em Camden. Num sorriso perdido em Shoreditch ou Brick Lane. Num flor do Mercado de Columbia Road.

O meu mundo, tal como achava que ele seria, está congelado em Londres.

Sinto muita falta do sabor da liberdade. Do sabor de novas aventuras. De apanhar aviões, roer as unhas e comer com as mãos.

Quando tudo acabar, quero voltar a londres Para descongelar isto.

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publicado às 19:19

2020

por Marina Ricardo, em 01.01.21

2020.
Por onde começar. Longo, penoso. Mas, tão magnífico.
Nunca quis tanto o que não tinha. Até perceber que tinha tudo o que precisa.
Fui a Londres, vi os Keane e a Sara Bareilles. Andei de avião, de metro e autocarro. Comi na rua, andei hipnotizado a compasso com multidões de desconhecidos. E depois a vida parou. E passei a andar de máscara e viseira.
Comprei álcool etílico ao preço de ouro.
Fiz pão - MUITO pão, bolos, bolachas e chás.
Fui obrigada a parar e aprendi a bordar, a cozer a máquina, a fazer vasos de barro e soube que não sei parar.
Descobri cantores novos e músicas que deram cor aos meus dias.
Nunca trabalhei tanto, mas, também nunca passei tanto tempo com a família.
Tentei comprar casa. Como não aconteceu, tornei-me naquelas pessoas que compram plantas de forma desmesurada. Tornei-me mãe de dezenas de plantas.
Mudei a decoração do quarto. Várias vezes.
Fiquei obcecada por Killing Eve e por macramé.
Instalei aplicações para saber como não matar plantas e mudei de trabalho.
Soube que era muito amada. Senti-me a rainha do mundo. Mas, também me senti desperançada.
Fiz duas road trips com a minha irmã.
Fomos muito inventivos na forma de matar saudades. E fiquei com imensos vales para concertos que não fui.
Tivemos todos saúde e estivemos juntos, quando tudo foi fácil, mas principalmente quando tudo foi difícil.
As máscaras de 2020 guardam muitos mais gargalhadas do que lágrimas.
2020 obrigada. Foste inesperado, difícil, mas mostraste-me muito do que precisava de saber.
Vamos a isto 2021.

IMG_20201231_232232_019.jpg

 

publicado às 14:40

Trambolhões

por Marina Ricardo, em 23.11.20

Os dias passam, tropeço neles e continuo a correr. Aos trambolhões, de má cara, peito aberto, braços estendidos.
Fujo das letras, com tanta pressa como com a que fujo do que sinto.
E avanço. Nunca sei onde vou. Nunca paro pelo caminho.

publicado às 00:10

imaculadamente branca

por Marina Ricardo, em 04.11.20

Não te quero chamar pelo nome, Essa intimidade dar-nos-ia confiança aos dois. De eu te conhecer e tu me achares tua.

Não tomemos a liberdade de darmos esse derradeiro passo em frente.

Se te cair nos braços, não mais me volto a erguer. Estamos ambos cientes disso.

Deixa-me fingir que não te sinto o aroma, o sabor salgado a mar, na boca. Que não me apertas o coração quando te penso. Que me entorpeces a mente quando te pressinto.

Deixa-me continuar a fingir, que não te tenho a respirar-me no pescoço, que não te guardo no bolso da camisa, imaculadamente branca. Que não te sinto, medo.

publicado às 01:38

A aventura começa em breve. Embarco?

por Marina Ricardo, em 22.10.20

A rotina e os lugares comuns fogem-me por entre os dedos esguios. Caem-me do colo, desarrumam-me a cabeça e abanam-me o coração.

Esqueci-me do conforto há muito, bicho inquieto. 

Nunca fico aqui muito tempo...

publicado às 00:34

ninho de pensamentos

por Marina Ricardo, em 09.08.20

Viajo para fugir de mim.

Das ideias que tropeçam e se misturam num emaranhado de invenções confusas. Do coração que falha batidas por estar desassossegado por alguma coisa que nunca descubro o que é. Do dia-a-dia que me engole e consome.

Viajo para me esquecer. Para ser só eu. Sem conhecidos e obrigações. Sem planos e sem horas. E, para algures na viagem de retorno me encontrar diferente.

Dou tudo de mim aos meus destinos, para vir cheia de mim nos meus regressos. Mais vazia e mais cheia de mundo.

Viajo sempre para me perder porque sei que no reencontro serei uma versão melhorada.

Nunca descanso nas férias. Porque não sei parar. Porque se pensar muito em todo o que me rodeia, não quero nada a rodear-me.

Preciso sempre de sair. Para voltar cheia de tudo o que me dá alento para ficar. Até voltar a sair.

 

publicado às 23:40


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