Segunda-feira, 16.04.18

perguntou ele #15

Apetecia-me um cigarro. Ou vários – para ser honesta. Mas, cerrei os dentes e olhei para o mar de ondas enormes. Tinha prometido deixar de fumar.

Pelo canto do olho vi-te chegar. Descontraído, mas, sem rir. A culpa era minha – ultimamente estava tão indisponível que mal nos víamos. E, quando a minha disponibilidade horário nascia, a minha disponibilidade humorística definhava.

“O que fazes quando estás sozinha?”, perguntaste-me há uns meses.

Não te respondi e mudei de assunto – sempre fui fugitiva nata.

Tenho pensado muito nisso, sabes?

Sinto-me tão sozinha e cheia que nem tempo tenho para pensar. Deixar de pensar ajuda, sabes?

E, se penso e quero outra coisa qualquer? E se tiver de magoar toda a gente outra vez para me consertar? Já pensaste que sou capaz de não ter arranjo possível?

Sei lá…. Acho que não faço nada. Durmo. E espero não ter sonhos. Nunca soube parar. Nem a dormir.

Não sei. Tenho toda a gente à minha espera. E só queria estar sozinha. Não quero dizer nada.

Queria desenhar, escrever. Pintar, cozer. Cria. Criar-me. Arranjar espaço.

Quando paro respiro e penso em ti. E… e, continuo.

Escrevia-te uma carta de amor, sabes?

Poisei a cabeça na palma da mão. Aproximas-te e pisca-me o olho. Rio-me para ti. Podíamos falar de amor, hoje. Mas, continuava a ser tão mais fácil falar da “casa de papel”.

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Domingo, 15.01.17

perguntou ele #14

- A que horas chegas? - perguntou ele, do outro lado da linha.

Ela sabia que ele continha o desagrado na voz. Queria soar menos zangado do que se sentia.

Ela fechou os olhos. Queria dizer muitas coisas.

Não me apetece discutir. Sabes que vou demorar. Queres que volte?

Dás-me colo? Estou exausta... Não quero discutir. E se hoje fizéssemos uma pausa? Eu amo-te. Deixa-me ficar em silêncio.

- Não demoro muito... - mente, vagamente, ainda de olhos fechados.

 

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Segunda-feira, 31.10.16

perguntou ele #13

 

Passa-se alguma coisa? – perguntou ele, aproximando a mão da face dela.

Ela recuou ou passo. Se ele lhe tocasse agora, ia desatar em prantos. Tudo o que ela não queria naquele momento era ter uma crise de choro ali.

Não se passa nada. Está a passar-se tudo. Como faço para parar? Quando é que isto para?

Não sei… o que faço? Como desisto? Como faço para parar? Como é que ainda ficas, se até eu já estou a partir?

Não se passa nada. Não me faças mais perguntas. Abraça-me. Vou chorar, importas-te?

Ele agarrou a mão que ela mexia nervosamente, ao lado do corpo.

Ela aproximou-se dele.

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Quarta-feira, 11.05.16

perguntou ele #12

- Porque raio….? – pergunta ele.

A pergunta-se perde-se no ar, algures do outro lado a porta.

Por um lado ela sente-se grata por estarem separados por aqueles centímetros de madeira escura.

Liga o chuveiro. Abafa os passos dele, na divisão ao lado. Porque raio haveria ela de o querer ouvir? Ele não estava a ouvi-la, pois não?

A água está definitivamente quente demais. Como demais lhe parece tudo. Ao fumo aglomera-se no teto da casa de banho baixa. 

Apetecia-lhe um cigarro. Desesperar com um cigarro entre os dedos, seria definitivamente melhor do que desesperar de mãos vazias.

Tenta que a água demasiado quente do chuveiro lhe gele o pensamento. Se o congelar, não mais se preocupa com ele.

Fecha os olhos. Queria tanto esquecer. Esquecer-se dela. Esquecer-se dele, que porque raio, continuava a andar nervosamente, castigando o soalho de madeira que tinha por debaixo dos pés.

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Sábado, 12.03.16

perguntou ele #11

"E se te desse o mar, ias sossegar?" - perguntou ele.

Ela sorriu levemente. Riso calmo, olhos inquietos.

"Não. Nessa altura ia querer o oceano todo. Ou o céu. Ou a lua."

Ele anuiu, decerto percebendo.

Ela fechou os olhos, descansando o pensamento galopante.

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Segunda-feira, 30.11.15

perguntou ele #10

- E agora? – perguntou ele com olhar expectante.

Sei lá. Deixa-te de merdas. Queres sempre saber mais do que o futuro. A minha avó sempre me ensinou que o “futuro a Deus pertence”. E, eu nem sequer se acredito em Deus.

Não sei. Agora, olha, estamos lixados. Não estamos sempre?

Vi a lista de coisas que é suposto eu ser capaz de fazer nesse futuro que tu queres dominar e que só os Deuses da minha avó conhecem e estou a entrar em pânico.

Ainda queres saber o que vamos fazer agora? E, se deixasses de fazer perguntas que não faço ideia de como responder? Deixa-te de merdas. Ama-me sem perguntas sem resposta.

- Agora? – respirou fundo. – Agora, não sei… Mas, está um frio do caraças. Quero um chá.

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Domingo, 23.08.15

perguntou ele #9

- E, é mesmo isso que tu queres? – perguntou ele arqueando uma sobrancelha. A do olho esquerdo. Era sempre aquele que levantava quando achava que eu estava a mentir.

 

Não. Não sei. Sei lá. Que raio de pergunta. Pergunta-me outra coisa. Não, acho que não. Mas, ao mesmo tempo, parece-me o mais acertado.

Não quero pensar muito nisso. Sempre que penso, magoo-me mais um bocadinho. E, se for a somar todos os bocadinhos, acabo por me magoar muito. Não deve ser isto o que quero. Mas, é isto que tenho. E, dentro do que tenho agora, sim, é isto que quero.

 

- Acho que sim – fingiu uma determinação que não sentia – Aliás, parece-me uma grande oportunidade.

 

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publicado por Marina Ricardo às 22:27 | link do post | comentar | Adicionar aos Favoritos (1)
Segunda-feira, 17.08.15

perguntou ele #8

- O que querias que acontecesse a seguir? - perguntou ele de modo suave mas concreto. Ele era sempre assim: suave e concreto.

 

Tudo. Que raio de pergunta. Sabes que quero que aconteça tudo. Quero me pegues na mão. Quero que o mundo pare. Quero que me ames. Quero amar-te enquanto descubro o teu amor. E quero ser feliz. 

Ser feliz é querer tudo. Já te tinha dito? Estou farta de fingir que tenho tudo. Não tenho quase nada.

 Quero ser tudo. Ter tudo. Quero tudo.

É pedir muito? Não quero muito. Quero tudo. Quero tudo já a seguir.

 

- Não sei – ela encolhe os ombros. Tenta sorrir de forma suave e concreta.  – O que querias tu que acontecesse a seguir?

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Terça-feira, 07.07.15

perguntou ele #7

- Porque não escreves? – perguntou ele, poisando-lhe a mão quente no ombro.

Tira-me a mão do ombro, estás e enervar-me. Não quero escrever. Não quero me doa mais nada. Sabes lá o que está por detrás dos meus olhos. Sabes lá o que me diz a minha cabeça quando tenho a boca calada.

Larga-me. Deixa-me estar. Não me faças pensar. Não me digas para escrever. Já tenho o peito em chamas não quero sangrar-me mais. Não quero escrever. Não tenho mais nada para dizer.

Tira-me a mão do ombro, estás e enervar-me. Larga-me. Deixa-me estar. Não me faças pensar. Não quero escrever.

Sabes lá de mim….

- Mais logo, agora não quero – respondeu sacudindo-lhe  a mão com um abanão de ombro.

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Quinta-feira, 11.06.15

perguntou ele #6

- O que tens? - perguntou ele poisando-lhe a mão no fundo das costas.

 

Não tenho nada. Acho que o problema é esse. Nem sei o que hei-de querer. Quero tudo. Mas, não sei como conseguir alguma coisa, quando mais conseguir tudo. Queria respirar melhor. Parece-me sempre que o ar é mais pesado para mim do que para os outros. Talvez seja. Nunca te vi a arfar enquanto corres. 

Estou cansada. Não me quero rir. E se eu me tornar essas pessoas com medo? Não me quero esforçar para ser feliz. Nunca vi ninguém fingir que é feliz. Isso não é vida, pois não?

 

- Não tenho nada... - respondeu ela, começando a andar muito depressa fazendo com que ele deixasse cair a mão ao lado do corpo.

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publicado por Marina Ricardo às 22:50 | link do post | comentar | ver comentários (1) | Adicionar aos Favoritos (2)

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