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perguntou ele #18

por Marina Ricardo, em 10.06.22

- Mas, vais ficar aí muito tempo? - perguntou ele.
Tinha o telefone em altifalante. Estava a pintar as unhas. Escuro. Sempre de escuro.
Olha em redor. As palavras dele ainda ecoam no quarto pequeno e pouco decorado.
Os seus olhos pousam por momentos nas duas plantas, estranhamente felizes e verdes, pousadas sobre um monte de livros por arrumar, ao lado da janela ainda aberta.
Pinta a unha do dedo mindinho com alguma surpreendente previsão enquanto respira fundo.
- Comprei duas plantas no domingo passado.
A frase respondia à pergunta. Achava ela.
- Não precisas de mentir - não era uma acusação. Mas, fe-la pensar que ele, decerto, não tinha percebido a resposta.
- Não estou a mentir. Comprei mesmo duas plantas - faz uma pausa para fechar o frasco pequenino de verniz - e, sabes que tenho que ir até ao fim. Onde quer que isso seja. Estou a aprender a confiar no processo... O que quer que isso seja.
Ele respirou fundo.
- Ok. Amanhã ligo-te.
Desligou sem esperar que ela lhe dissesse mais alguma coisa.
Ele não ligou. Ela não esperava que ele o fizesse. E estava tudo bem. Fazia parte do caminho. E, agora ela confiava no processo - o que quer que isso fosse.

publicado às 01:51

perguntou ele #16

por Marina Ricardo, em 19.10.19

Levas a chávena à boca. Bebes um gole. Pequeno e curto. O café deve estar gelado.

Cruzo os braços. Devia ter trazido casaco.

- Não queres nada? – pergunta ele.

Olha, não sei. Sei lá eu alguma coisa… Queria tudo. Mas, às vezes não quero nada.

Estou cansada. Não consigo dormir. Quero escrever um livro, mas não escrevo nada. Percebes como é estúpido?

Quero casar contigo, mas nunca te disse que te amo.

- Pedes-me um café, por favor? Vou só á casa de banho.

E, fugi.

 

publicado às 20:00

perguntou ele #15

por Marina Ricardo, em 16.04.18

Apetecia-me um cigarro. Ou vários – para ser honesta. Mas, cerrei os dentes e olhei para o mar de ondas enormes. Tinha prometido deixar de fumar.

Pelo canto do olho vi-te chegar. Descontraído, mas, sem rir. A culpa era minha – ultimamente estava tão indisponível que mal nos víamos. E, quando a minha disponibilidade horário nascia, a minha disponibilidade humorística definhava.

“O que fazes quando estás sozinha?”, perguntaste-me há uns meses.

Não te respondi e mudei de assunto – sempre fui fugitiva nata.

Tenho pensado muito nisso, sabes?

Sinto-me tão sozinha e cheia que nem tempo tenho para pensar. Deixar de pensar ajuda, sabes?

E, se penso e quero outra coisa qualquer? E se tiver de magoar toda a gente outra vez para me consertar? Já pensaste que sou capaz de não ter arranjo possível?

Sei lá…. Acho que não faço nada. Durmo. E espero não ter sonhos. Nunca soube parar. Nem a dormir.

Não sei. Tenho toda a gente à minha espera. E só queria estar sozinha. Não quero dizer nada.

Queria desenhar, escrever. Pintar, cozer. Cria. Criar-me. Arranjar espaço.

Quando paro respiro e penso em ti. E… e, continuo.

Escrevia-te uma carta de amor, sabes?

Poisei a cabeça na palma da mão. Aproximas-te e pisca-me o olho. Rio-me para ti. Podíamos falar de amor, hoje. Mas, continuava a ser tão mais fácil falar da “casa de papel”.

publicado às 17:30

perguntou ele #14

por Marina Ricardo, em 15.01.17

- A que horas chegas? - perguntou ele, do outro lado da linha.

Ela sabia que ele continha o desagrado na voz. Queria soar menos zangado do que se sentia.

Ela fechou os olhos. Queria dizer muitas coisas.

Não me apetece discutir. Sabes que vou demorar. Queres que volte?

Dás-me colo? Estou exausta... Não quero discutir. E se hoje fizéssemos uma pausa? Eu amo-te. Deixa-me ficar em silêncio.

- Não demoro muito... - mente, vagamente, ainda de olhos fechados.

 

publicado às 20:57

perguntou ele #13

por Marina Ricardo, em 31.10.16

 

Passa-se alguma coisa? – perguntou ele, aproximando a mão da face dela.

Ela recuou ou passo. Se ele lhe tocasse agora, ia desatar em prantos. Tudo o que ela não queria naquele momento era ter uma crise de choro ali.

Não se passa nada. Está a passar-se tudo. Como faço para parar? Quando é que isto para?

Não sei… o que faço? Como desisto? Como faço para parar? Como é que ainda ficas, se até eu já estou a partir?

Não se passa nada. Não me faças mais perguntas. Abraça-me. Vou chorar, importas-te?

Ele agarrou a mão que ela mexia nervosamente, ao lado do corpo.

Ela aproximou-se dele.

publicado às 20:57

perguntou ele #12

por Marina Ricardo, em 11.05.16

- Porque raio….? – pergunta ele.

A pergunta-se perde-se no ar, algures do outro lado a porta.

Por um lado ela sente-se grata por estarem separados por aqueles centímetros de madeira escura.

Liga o chuveiro. Abafa os passos dele, na divisão ao lado. Porque raio haveria ela de o querer ouvir? Ele não estava a ouvi-la, pois não?

A água está definitivamente quente demais. Como demais lhe parece tudo. Ao fumo aglomera-se no teto da casa de banho baixa. 

Apetecia-lhe um cigarro. Desesperar com um cigarro entre os dedos, seria definitivamente melhor do que desesperar de mãos vazias.

Tenta que a água demasiado quente do chuveiro lhe gele o pensamento. Se o congelar, não mais se preocupa com ele.

Fecha os olhos. Queria tanto esquecer. Esquecer-se dela. Esquecer-se dele, que porque raio, continuava a andar nervosamente, castigando o soalho de madeira que tinha por debaixo dos pés.

publicado às 23:27

perguntou ele #11

por Marina Ricardo, em 12.03.16

"E se te desse o mar, ias sossegar?" - perguntou ele.

Ela sorriu levemente. Riso calmo, olhos inquietos.

"Não. Nessa altura ia querer o oceano todo. Ou o céu. Ou a lua."

Ele anuiu, decerto percebendo.

Ela fechou os olhos, descansando o pensamento galopante.

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publicado às 23:07

perguntou ele #10

por Marina Ricardo, em 30.11.15

- E agora? – perguntou ele com olhar expectante.

Sei lá. Deixa-te de merdas. Queres sempre saber mais do que o futuro. A minha avó sempre me ensinou que o “futuro a Deus pertence”. E, eu nem sequer se acredito em Deus.

Não sei. Agora, olha, estamos lixados. Não estamos sempre?

Vi a lista de coisas que é suposto eu ser capaz de fazer nesse futuro que tu queres dominar e que só os Deuses da minha avó conhecem e estou a entrar em pânico.

Ainda queres saber o que vamos fazer agora? E, se deixasses de fazer perguntas que não faço ideia de como responder? Deixa-te de merdas. Ama-me sem perguntas sem resposta.

- Agora? – respirou fundo. – Agora, não sei… Mas, está um frio do caraças. Quero um chá.

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publicado às 20:10

perguntou ele #9

por Marina Ricardo, em 23.08.15

- E, é mesmo isso que tu queres? – perguntou ele arqueando uma sobrancelha. A do olho esquerdo. Era sempre aquele que levantava quando achava que eu estava a mentir.

 

Não. Não sei. Sei lá. Que raio de pergunta. Pergunta-me outra coisa. Não, acho que não. Mas, ao mesmo tempo, parece-me o mais acertado.

Não quero pensar muito nisso. Sempre que penso, magoo-me mais um bocadinho. E, se for a somar todos os bocadinhos, acabo por me magoar muito. Não deve ser isto o que quero. Mas, é isto que tenho. E, dentro do que tenho agora, sim, é isto que quero.

 

- Acho que sim – fingiu uma determinação que não sentia – Aliás, parece-me uma grande oportunidade.

 

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publicado às 22:27

perguntou ele #8

por Marina Ricardo, em 17.08.15

- O que querias que acontecesse a seguir? - perguntou ele de modo suave mas concreto. Ele era sempre assim: suave e concreto.

 

Tudo. Que raio de pergunta. Sabes que quero que aconteça tudo. Quero me pegues na mão. Quero que o mundo pare. Quero que me ames. Quero amar-te enquanto descubro o teu amor. E quero ser feliz. 

Ser feliz é querer tudo. Já te tinha dito? Estou farta de fingir que tenho tudo. Não tenho quase nada.

 Quero ser tudo. Ter tudo. Quero tudo.

É pedir muito? Não quero muito. Quero tudo. Quero tudo já a seguir.

 

- Não sei – ela encolhe os ombros. Tenta sorrir de forma suave e concreta.  – O que querias tu que acontecesse a seguir?

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publicado às 23:37


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